Não que seja ruim... Só de andar nos corredores no quinto andar do HC eu tenho essa sensação meio surreal de estar andando ao mesmo tempo no presente e nas minhas lembranças. Não é difícil imaginar o porquê desse lugar significar tanto pra mim... Na minha época mais negra, o único lugar em que eu me permitia sentir alguma coisa era lá. Onde o véu cinza da depressão diminuía um pouco, mesmo com os pacientes mais doentes, mesmo quando eu saía do quarto cansada e triste e abatida, alguma coisa ficava de bom. É muita presunção falar que era a sensação de trabalho feito, mas é quase isso; a sensação de que, pra alguém, por quase uma hora e meia, eu fiz diferença - claro, qualquer um de nós faz a diferença ali; mas é inexplicável o que se sente quando um paciente segura sua mão e olha pra você e sorri e agradece, agradece mesmo, naquele instante você sente uma coisa que só dá pra chamar de amor entre você e a pessoa com quem conversou.
Sempre me maravilhou que aquelas pessoas, aqueles idosos, tão doentes, tão frágeis, muitas vezes passando o dia sozinhos e com (quase) ninguém para conversar, o tanto que a maioria deles tinha pra dar. O tanto de gratidão emanando deles, como se você fosse de uma bondade infinita por estar ali, "perdendo seu tempo" conversando com eles.
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Sempre tem experiências meio... Chocantes. Mais de uma vez eu vi um paciente contido às grades da maca (pode parecer bárbaro, mas se não fizerem isso, eles arrancam o soro da veia, arrancam o oxigênio do nariz, arrancam a sonda nasogástrica, arrancam tudo e tentam fugir dali), perdido dentro da própria cabeça, discutindo com gente que não estava ali (ou vai ver estava, eu é que não conseguia ver mesmo) num súbito acesso de raiva seguido de um choro tão triste de cortar o coração... E essas são as mais cansativas de todas as visitas. Mas não deixo de guardar as lembranças delas com carinho.
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Às vezes, as pessoas só precisam de alguém que as ouça. Só isso. Eu sei como é precisar falar (no meu caso, eu tenho gente pra falar, só me falta a coragem de abrir todos os mil níveis de muralhas erguidas ao longo de quase vinte anos), e sei também como é libertador quando você finalmente fala - uma das coisas boas da terapia era isso, era poder falar falar falar falar o fluxo de pensamentos, sem ligar se era coerente ou não, sem pensar que eu estava sendo ridícula falando duas frases e depois passando meia consulta chorando e gastando toda a caixa de lenço de papel, e no fim deu certo.
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Andar no quinto andar também traz fantasmas de pessoas, fantasmas de um tempo em que as coisas eram mais fáceis (ou eu só achava que eram assim porque realmente vivia só na superfície de mim mesma, sem ousar ir além do imediatamente visível); traz as lembranças das nossas tardes
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É isso! Quem quiser, tamo aceitando doações de fondue e vinho tinto (de preferência suave, se não rolar eu aceito o seco mesmo) pras provisões de inverno. Beijos, SEUS LINDOS!
2 comments:
Eu até cogitei ir hoje, mas tinha dentista =/
o Feliz às vezes me dá mta preguicinha, mas acho que sempre que eu supero e vou na visita, é um prazer. É isso aí q vc falou: parece que a gente fica um pouquinho mais perto das próprias emoções.
(e aí concluo, again and again, o quanto eu faço/fazia isso por um certo egoísmo)
E não eram tardes perdidas no Giga! Foram mtas horas ganhas... Eu, pelo menos, ganhei mto com elas.
Ganhei algo mais próximo de um lar mesmo estando a 350km de casa (depois de mais de um ano tentando), só pra vc ter uma ideia =)
Tbm sinto saudade daqueles dias, outro dia achei umas fotos nadaver e uns vídeos e, nossa, deu saudade mesmo.
Parei por aqui ;p
=**
p.s.: o Giraffa's comentou casualmente hj que trouxe fondue #vamosacompanhar
Me sinto mesquinho e vil perto de ti...já sinto o fogo e enxofre me aguardando... ಠ_ಠ
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