Thursday, February 3, 2011

Da morte (ou não) dos sonhos

Sempre se sentiu meio presa. Assim, presa num mundo que não era dela de verdade. As pessoas grandes não eram sonhadoras como ela, que sempre foi meio isolada - todo mundo brincando e ela sentada, lendo qualquer livro que lhe caísse nas mãos e ouvindo mpb (aos 8 anos ganhou o primeiro cd da Marisa Monte, Barulhinho Bom). Perdida num mundo que não era esse, viajando no mundo fantástico das histórias inventadas pelos outros e embalada por música. Até arriscava os primeiros traços, os primeiros rabiscos, os primeiros desenhos tentando retratar o mundo que lhe entrava pelos olhos. Foi uma criança calma (meio excêntrica em alguns momentos, talvez, mas né). No ginásio, não se importava em ser diferente: ainda devorava livros, e aos 13 já lera O Mundo de Sofia e começava a pesquisar sobre os diferentes filósofos, conversava com o pai sobre física e astronomia, falava com a mãe sobre arte. Melhorou os traços de desenho, se esforçava para que a mão soubesse fazer o que a mente via. Ouvia principalmente rock e mpb. Viajava mais ainda nas histórias que as pessoas escreviam, viajava nas palavras e com as palavras.
No colégio começou a sentir o peso de ser diferente. Porque veja, com 14 anos já era experiente em algumas coisas, mas nunca havia dado um beijo. Era precoce em várias coisas e tenebrosamente inexperiente em tantas outras. Ansiava poder estar com aquele garoto da mesma sala dela, mas não sabia como atrair a atenção dele, não aceitava que rapazes prestassem atenção numa garota quase exclusivamente com base no que ela aparentava. Odiava se sentir observada na rua, odiava se sentir observada em qualquer lugar, morria de vergonha quando pegava um amigo mirando seu decote (que na época eram menores do que os que viria a usar). Não queria se sentir só um pedaço de carne, e ao mesmo tempo adorava se sentir desejada por uma pessoa, adorava treinar olhares e provocações. Nessa época começou a mudar. Começou a se arrumar antes de sair de casa - bem pouco, mas ainda assim, se arrumar. Ainda lia muita coisa desconhecida para a maioria das pessoas da sua idade, mas já começava a ser mais sociável.
A coisa desandou mesmo no cursinho. Porque o mundo lhe dizia que não podia ser a mesma pessoa que era e entrar na faculdade. Porque o mundo lhe dizia que sua melhor chance de se libertar seria se enquadrar no sistema, e ela não percebeu o absurdo do que lhe diziam. Não percebeu que aquilo não era liberdade, eram correntes mais pesadas e mais fortes. Mas ainda tinha sonhos, tinha sim. Seu próprio apelido entre os amigos era Yume (sonho, em japonês, mais tarde eternizado sob sua pele). On hopes and dreams she lived.
Mas não dá pra viver de sonhos e tentar se encaixar, tentar agradar, tentar mostrar que ler, se informar é ser inteligente do jeito que as pessoas esperam que se seja inteligente. Enquanto entregava sua vida ao mundo, parte dela se afogava. Aquela parte, que sempre esteve ali, tentando entender o mundo e as pessoas, tentando descobrir por quê, estava morrendo, e tudo que ela percebia era que estava cada vez mais vazia, e não entendia isso. Era um exemplo pra sua própria família. Era admirada e elogiada por tantos... E aquilo não era suficiente. Era pouco. Não os elogios e a admiração. Mas entrar numa faculdade era tão menos do que qualquer outra coisa com que ela sonhara, mas nem se dava conta disso, porque nem lembrava mais dos próprios sonhos.
É perigoso. E ela se deixou levar pelo mundo, largou aos poucos o que a prendia aos sonhos, mas algo estava errado e não dava mais pra negar. Quantas festas, quantas bebedeiras desenfreadas? Tantas coisas de que não se orgulhava. Mas, hey, acorda, outro dia, você é jovem, tem de curtir a juventude e a faculdade, quando estiver trabalhando... Blablabla... E tudo, tudo se juntou. Até que não deu mais, e ela teve um colapso. Suicídio era recorrente entre seus pensamentos, e quantas vezes ela não planejou? Aprendeu a se enforcar na maçaneta da porta, escreveu inúmeros bilhetes de suicídio. Já não era como nas outras vezes, aquelas, quando percebeu que talvez nunca fosse se encaixar no mundo. Nas outras vezes, era só um pensamento meio distante, de noite, e aprendeu a fazer os momentos passarem cortando os próprios dedos (para não ter cicatrizes, era desesperada mas não queria que o mundo soubesse; tinha que ser forte, por isso os cortes, controlar a dor que sentia era um jeito de aprender a controlar os próprios sentimentos). Mas não dessa vez. E quase aconteceu. Quase.
Mas ela finalmente começou a sair do poço em que se encontrava. Uma subida lenta, que não terminou. E cada passo pra cima é uma (re) descoberta sobre si mesma. A última, mais recente, foi a que mais doeu. E ela tem medo de que, naquela derradeira noite em que quase colocou a corda no próprio pescoço, algo tenha afinal morrido: seus próprios sonhos. Ela tem medo de que uma parte dela possa ter morrido e nunca mais volte e ela fique sempre assim, vivendo uma meia vida.

1 comments:

Cat said...

Nossa, o que é isso? :O
Baixou o Saramago? XD