Eu lembro da primeira vez que me machuquei. Não aquele machucado do tipo caí-e-ralei-o-joelho; aquele machucado do tipo caí-na-realidade-e-ela-dói.
Lembro daquelas férias fim/começo de ano, as últimas com um gostinho de inocência nelas.
Ele estava, claro. Férias sem ele não eram férias, ou assim parecia então. Era ele quem tinha as melhores idéias para brincadeiras, ele quem tinha a paciência infinita e o jeito para acalmar as birras dos menores, fazê-los parar de chorar quando se machucavam, essas coisas.
Ele era doce. É, ainda, eu acho.
Era nas férias que, quando ainda éramos crianças, simplesmente curtíamos a presença um do outro, implicando e brincando. Era nas férias que eu dormia com as mãos dele nos meus cabelos, desde quando consigo me lembrar. E foi nas férias que os primeiros traços do desejo – desejo adolescente, desajeitado e tímido a princípio – surgiram, e foi com ele que aprendi a sentir o olhar de um homem sobre minha pele.
Eu tinha 15 anos, ele 17.
E uma noite, uma das tantas daquele ano em que ficamos vendo filmes até tarde para os menores dormirem (e os grandes também), o ritual começou de novo: as mãos dele no meu corpo, minhas mãos no dele, o gosto do proibido nas nossas bocas. E aquela noite, fomos mais longe do que tínhamos até então, embora não tão longe ainda quanto um dia iríamos.
Eu era inocente, ainda. A inocência não se perde quando se abraça o desejo, ela se perde com muito mais.
Eu queria saber. Saber sobre ele. Eu sabia que as mãos dele eram as desbravadoras dos meus desejos, mas não sabia quantos outros corpos aquelas mãos tinham percorrido, e enquanto conversávamos sobre outras coisas, outras pessoas, fui conduzindo a conversa para onde eu queria.
E eu soube – porque ele foi sincero, e eu saberia depois se não tivesse sido. Soube das festas, dos churrascos, de tudo. E cada palavra abria uma ferida dentro de mim, cada história fazia sangrar mais um pouco.
-Então eu sou igual às outras? Não significo nada?
-Você é diferente delas... Você é especial, você é única para mim.
-...
-Você tá chorando? Eu não queria te magoar...
Não queria, mesmo. Mas machucou. Talvez não ele. O que machucou foi perceber que, de verdade, amor e desejo nem sempre andam juntos. Foi perceber – meses, anos depois – que por mais que eu estivesse com outro, pra mim era sempre ele ali. Era só fechar os olhos e pronto, qualquer voz se transformava na voz dele, qualquer cheiro se transformava no cheiro dele, qualquer outro se transformava nele.
Mas uma coisa é perceber, outra coisa é aceitar. Não, não, não podia ser daquele jeito. Não podia. Então, por mais que o sentimento estivesse ali, não estava. Até quando não pude mais fugir, e o peso dele me sufocou como se tivessem roubado todo o ar do mundo, e eu precisei escolher entre viver aquele sentimento ou continuar tentando fingir que ele não existia ou deixar que ele morresse.
E ele morreu. O luto - pelo calor bom que era pensar nele, pelos momentos bons que tivemos - ainda não acabou. Mas vai passar.
~*
É um conto. Não tem bruxas nem príncipes encantados nem princesas nem dragões nele (a menos que se queira metaforizar a coisa toda, mas faça-o por sua conta e risco), e é tão real quanto você quiser que seja.
Beijos e vanilla a vocês!
Ps: quem não curtir café, pode trocar o vanilla por chocolate quente. Desde que vocês me deixem comer suas rosquinhas =P
3 comments:
antes morrer ele do q vc...
eu já caí na realidade várias vezes, machuquei várias, e sempre voltei pra minha realidade q dói menos. o chato é sempre voltar pra ela um pouco diferente; nem sempre é bom, e por mais fácil q fosse poder culpar alguém, quem?!
Belo texto =)
Cair na realidade pode ser uma queda dura, mas vc soube traduzir de maneira doce e delicada, na medida certa.
Gostei muito e, claro, me identifiquei ;p
Eh noezs, visinïa! o/
E, é claro, vc sempre pode comer minha rosquinha ;D
=***
hahah eu sei sobre o q vc fala pelo menas acho q sei neh XD
Entao vuash acabei de postar lah no brogue e eh uma coisa parecida com a tua, mas só li aqui depois rs
Post a Comment